terça-feira, 5 de novembro de 2013

Ateus: Eternos Revoltados, Lógica Irracional

Ateus: eternos revoltados, lógica irracional



Recentemente li esta mensagem que tinha como autor desconhecido:

“A existência de Deus independe de crenças ou descrenças. Ao inverso do que procuram fazer crer alguns, o ateísmo nunca é conseqüência de madura reflexão, ou resultante inelutável do conhecimento científico ou filosófico, é fruto de orgulho e rebeldia, uma manifestação da puberdade intelectual, como a acne o é da biológica. Para afirmar o próprio ego, busca rejeitar a autoridade.

 O ateu militante, encara a descrença como dogma, e a destruição da fé em Deus como um apostolado, em sua revolta anti-espiritual elege o próprio ego como o deus de si mesmos.Buscando justificativas racionais para a escolha feita, encantam-se ainda mais com a própria inteligência. Mas, ao contrário do que propalam, sua opção nada tem de racional, explicando-se melhor por um processo emocional. Acreditando compor uma seleta elite, ao fazerem da própria descrença um dogma e da ciência uma seita, olham de cima para os que crêem em Deus, considera como pessoas de mentes infantis, Isso os infla ainda mais de auto-importância e satisfação."

Vamos analisar esta crítica com cuidado

I) “A existência de Deus independe de crenças ou descrenças.”
Ponto bastante complexo. A existência e a inexistência do que quer que seja independe da crença a ela atribuída. Porém, o fato de haver ou não crenças acerca da existência de algo não prova, de maneira nenhuma, sua existência. 

O que se deve pensar é : se é necessário que se creia na existência do que quer que seja, isso significa que esta existência não é absoluta. Por existência absoluta se entende aquele que é óbvia, clara, experienciável. Por exemplo, não há quem não acredite que o Sol exista pois , a cada dia, qualquer um pode vê-lo e senti-lo.Se qualquer outra categoria de existência necessita de fé para que se configure como viável, esta está errada. Aquilo que não é experienciado por nenhum dos sentidos e aptidões humanas (em dimensão conjunta e inquestionável, aliás) é a simples definição de "inexistente".

II) “Ao inverso do que procuram fazer crer alguns, o ateísmo nunca é conseqüência de madura reflexão, ou resultante inelutável do conhecimento científico ou filosófico, é fruto de orgulho e rebeldia, uma manifestação da puberdade intelectual, como a acne o é da biológica”
Esta afirmação é alvo de sua própria crítica. Se o Ateísmo não fosse fruto de madura reflexão , seus teóricos seriam pessoas influenciadas por um sentimentalismo débil.

A crítica Ateológica parte do princípio da observação filosófica , científica e histórica - tão empírica quanto for possível - que visa apontar as lacunas e contrariedades que a religião impõe à realidade. Procura tornar toda a produção teológica passível de debate e investigação, e repudia qualquer forma de censura ou imposição. Dizer que o Ateísmo é fruto de orgulho e rebeldia é tão ridículo quanto dizer que o Teísmo é fruto de humildade e obediência. 

É tão ridículo quanto dizer que a população ateísta o é porque tem afinidade com ações pecaminosas, e ignora qualquer regra imposta para evitá-las. Em primeiro lugar, o ateísmo nega a classificação do que quer que seja como "pecado". Quanto ao orgulho, o crítico pode estar se referindo a negação de Deus e à elevação do ser humano ao status de divindade. Tal posição também não confere : o ateísmo defenderá que não é necessário que haja uma entidade superior que governe a Natureza. Cai-se aqui no paradoxo inicial : o ateísmo nega a existência da entidade superior pois esta não é absoluta. Quanto a rebeldia, parte-se do princípio que o ateu se rebela de algum tipo de lei absoluta.

 Em primeiro lugar , o ateu nega e ignora estas leis, em vez de se rebelar. A sutil (ou não tão sutil) diferença entre as ações descritas é a chave do entendimento desta argumentação. Se o ateu se rebela contra as leis Cristãs (por exemplo) , os Cristãos se rebelam contra as leis muçulmanas, espíritas, pagãs, cabalistas, naturalistas e milhares de outras tantas. O que isso traz de autoridade ao argumento teísta? absolutamente nada. Finalmente, o crítico fala que o Ateísmo é manifestação de "puberdade intelectual".

 Ateus de plantão poderão dizer que se trata de liberdade de pensamento, crítica e expressão. Liberdade, não libertinagem. Aliás, a moral laica é universal enquanto a religiosa é restrita a grupos conflituosos. Além do que, se o pensamento teísta for "maduro" , esta maturidade é repudiável em cada um de seus sentidos : segregação, preconceito, morte,censura,guerras e tantas outras manifestações parvas de humanidade se apresentam entre a história das religiões.

 Poderão dizer que no lado laico e ateísta também há estas manifestações.Exatamente. E porque isso provaria que a religião é maior do que sua ausência?Esta constatação só exprime aspectos da natureza humana, que a religião clama tanto poder controlar. Além do que , enorme parte dos genocidas e assassinos da liberdade que a humanidade jamais conheceu se declaravam praticantes de grandes religiões.É incrível como estas os negam depois de realizadas suas obras...

III) “O ateu militante, encara a descrença como dogma, e a destruição da fé em Deus como um apostolado, em sua revolta anti-espiritual elege o próprio ego como o deus de si mesmos.Buscando justificativas racionais para a escolha feita, encantam-se ainda mais com a própria inteligência.”

Este pequeno trecho contém vários pontos importantíssimos. Em primeiro lugar, analisemos o apresentado ‘dogma da descrença’.

O que devemos analisar primeiro neste ponto é o significado e emprego da palavra ‘dogma’. ‘Dogma’ é explicado como “verdade de fé”, por mais paradoxal que o termo possa ser. Sendo assim, o texto nos afirma que todo ateu é descrente por fé na inexistência de Deus. Se este aspecto fosse minimamente verdadeiro, o Ateísmo como posição social seria tão ridículo quanto o alvo de suas críticas. Ao contrário, o Ateu professa tal posição justamente pelo fato de julgar insuficientes todos os argumentos que ‘provam’ a existência de Deus, os quais serão abordados futuramente.

Em sequência, o texto afirma que o ‘apostolado’ do Ateu é a ‘destruição da fé em Deus’.É desnecessário dizer que a prática do ‘apostolado’ é não só abominada como também não empregada por nenhum ateu consciente. O Ateísmo não quer nem precisa que as religiões se destruam, ou que a fé deixe de existir. O que o Ateísmo clama a plenos pulmões ao mundo todo é o direito de existir livre dos infinitos preconceitos que sofre por parte dos religiosos e dos líderes políticos e sociais. 

O Ateísmo exige o direito de se pronunciar abertamente em emissoras de televisão em horário nobre sem ser ridicularizado , exige ser socialmente aceito como as mais ridículas e aleatórias religiões e , o mais importante, exige que seus praticantes sejam tratados como merecem, e não como a expressão do campo “outros (cite)” em qualquer pesquisa ou dado estatístico oficial.

O texto ainda trata o Ateu como um revoltoso. Denomina sua postura cética em relação ao nocivo conceito de Deus de ‘revolta anti-espiritual’ e afirma que o Ateu elege seu ego como deus de si. Só uma pequena observação : me parece que o autor deste texto é o verdadeiro orgulhoso, revoltoso, infantil , parvo e militante. 




Mas voltemos à análise do texto. O Ateu não é um revoltoso, é um cidadão como qualquer outro,mas que clama por seu direito de nunca mais ser incomodado com qualquer tipo de discurso religioso, de qualquer religião e de quem quer que seja. A isso chamam de ‘revolta anti espiritual’. O Ateu não é anti espiritual pois não aceita o conceito de ‘espírito’ e ‘alma’, uma vez que estes nunca foram provados nem sequer remotamente sugeridos por qualquer processo científico. O ultimo argumento desse trecho me parece pura “dor de cotovelos”. Dizer que o ateu elege seu ego como deus de si é a prova cabal do analfabetismo do interlocutor.

Se Ateu é aquele que se nega a professar uma fé e a adorar qualquer tipo de divindade, como poderá eleger para si um Deus? Ao que consta , é a religião o fenômeno paradoxal por excelência, não a ausência desta.

Finalmente, o último argumento do trecho deste tópico mostra as intenções difamatórias do autor. Parece assombrar e ofender profundamente o autor o fato de que o Ateísmo justifica-se com ciência e produção intelectual séria. Ora, seria ridículo justificar o que quer que seja com somente argumentos irracionais e não baseados na experimentação e discussão científica, não é mesmo? O autor discorda. Ainda é dito que os Ateus se espantam cada vez mais com sua inteligência, o que é tendencioso e mentiroso. 

Os Ateus não se espantam com a evolução científica e com o avanço das experimentações que oferecem respostas coerentes às dúvidas mais inerentes à humanidade. Não. O que os espanta é ver que , mesmo com esses avanços e essas respostas, ainda há pessoas que se negam a abrir os olhos a tantas realidades e a modificar suas crenças , para tornar seu discurso menos ridículo.

IV) “Mas, ao contrário do que propalam, sua opção nada tem de racional, explicando-se melhor por um processo emocional. Acreditando compor uma seleta elite, ao fazerem da própria descrença um dogma e da ciência uma seita, olham de cima para os que crêem em Deus, considera como pessoas de mentes infantis, Isso os infla ainda mais de auto-importância e satisfação.”

Analisemos o último trecho do texto. A primeira frase é chocante. O autor afirma que o Ateísmo nada tem de racional e se explica por um processo emocional. Qual? Revolta? Não, caro filho de Deus, o Ateísmo não se fundamenta sobre o pantanoso terreno das ‘certezas’ emocionais. O Ateísmo nega o Criacionismo pelo simples argumento lógico de que nada “existe desde sempre”.

O Ateísmo nega que exista um Espírito de qualquer origem que dite as ações dos altos líderes religiosos do mundo pelo simples fato de que estes foram os autores de algumas das maiores atrocidades que a humanidade já conheceu. Porém, o Ateísmo tem a humildade de reconhecer-se falho no dia em que ficar absolutamente provado que suas críticas estão infundadas e que, de fato, existe um Deus. 

Os Ateus não se consideram uma “seleta elite”. Ao contrário, são uma “seleta minoria” que, com o desenvolver de suas vidas, adquiriu um passaporte direto, sem escalas e em velocidade surpreendente, aos quintos dos Infernos, diriam os religiosos. Agora, pense, quem é que se considera superior e seleto aqui?! Também não é dogmática sua descrença, como já dissemos, nem a Ciência é a sua seita.

 A Ciência é sua ferramenta, através da qual suas teorias podem ser comprovadas ou destruídas e sua concepção de realidade expandida. O Ateu não olha prepotente para aqueles que professam uma fé. Ele olha, geralmente, pelo canto dos olhos, procurando correr o mais que pode da multidão armada de Bíblias, água benta, carteirinhas de Dízimo, cruzes, panfletos sobre a pós morte e palavras ininteligíveis que crêem serem a “língua dos anjos”. 

O Ateísmo não pode considerar os religiosos como possuidores de mentes infantis ou inferiores. Alem de a Ciência haver provado a inexistência de qualquer grupo superior entre os Homo sapiens, existem inúmeros grandes cientistas que são religiosos, como Francis Collins, por exemplo.

O Ateu não é sádico, vingativo ou marginal. Pelo contrário, geralmente é contra isso que luta, intelectualmente, aliás. Não organiza passeatas, marchas, romarias, procissões, cultos campais nem qualquer outra manifestação pública de sua descrença pelo simples fato desta ser proibida e ridicularizada pela sociedade. Porém, não quero deixar a impressão de que os Ateus são “pobres coitados”. 

Os Ateus não se sentem intimidados pelos processos citados acima. Ao contrário, se sentem obrigados a , cada vez mais, contribuir para a laicização da sociedade e sua evolução rumo ao respeito e tolerância mútuas, à igualdade de direitos e , o mais importante, de posição religiosa.




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